Editorial Na Língua

uma carta as leitoras e leitores

NA LÍNGUA - ZINE

Aline e Bia

6/8/20264 min ler

                                                                                                            “Engoli a inspiração para descomê-la em prosa

                                                                                                                                                                  Câmara Cascudo


“Na Língua” é um zine para beber alguns goles de Brasil. Nasce da vontade de duas sommelières, em que de um lado friccionamos a antropologia, do outro a hospitalidade e, por algumas frestas, acessamos olhares e narrativas para o mercado de bebidas brasileiro através do líquido.

Queremos propor uma lambidela, provocar em pequenos e grandes goles, trazer recortes e linhas para instigar através daquilo que é cotidiano, ordinário, em mundos diversos e que nos desperta.

Queremos colocar ideias para fermentar, a fim de alcançar outros campos, vontades, línguas, toda a multiplicidade que habita estas terras e, por isso, achamos que fica ainda melhor quando falamos em Brasis — assim mesmo, no plural.


Ao nomear Na língua, queremos fazer sentir aquilo que arrepia. Conectar sentidos ao degustar vários Brasis em linguagem líquida, desdobrando e (re)descobrindo mundos.

O zine reúne diferentes vozes sobre o beber como prática cultural, afetiva, estética e política. Entre memórias de infância, saberes ancestrais e reflexões sobre o gosto, as diferentes textualidades mostram que o que está no copo vai muito além da bebida: é território, tempo, linguagem e relações.

América Invertida (Joaquín Torres García, 1943).


Pedimos licença para ocupar uma quitinete em sua cabeça com muitas ideias e bebericagens. Vamos usar como fonte a imensidão dos sabores e saberes de um país, esticando pensamentos e deslocando algumas perguntas. Para tanto, fizemos algumas escolhas necessárias e outros tantos recortes. Filosofamos.

Abrasileirar tecendo fios, com tantas camadas de complexidade, é tarefa no coletivo. Convidamos, assim, pessoas que nos cercam, que lemos, que ouvimos, que admiramos e que, assim como nós, são ávidas pelos Brasis.

Abrimos com o texto da Aline, Brasilidade também se fermenta, que cria as primeiras frestas sobre o fermentar brasileiro e que traz algumas indagações que tanto nos entrelaçam. Em seguida, André Dahmer desloca o pensamento com um toque de humor em sua charge. Na sequência, Raquel Tupinambá nos convida a conhecermos o Tarubá a partir da sua vivência, no texto Tarubá, areramó uaé, indeka!.

Seguimos com o texto do Gabriel Gurian e seu olhar histórico e curioso para as Vitrines de outrora. Com Pâmela Queiroz, Entre as borbulhas e o tempo: Memórias de um Brasil que bebe, atravessamos sua infância no território do Cariri cearense. Mari Mesquita, em seu artigo Pera, uva, maçã, Bebida Mista, fala sobre os aperitivos, as bebidas mistas e quentes, tensionando o fio para um outro olhar dos copos e léxicos em que, na ponta da língua, o gosto vem antes do nome. Da ilustração do divã da Ela Marte, sentamos para ouvir como se constrói um paladar nas entrevistas de Flávia G. Pinho, que com nomes que são referências do setor da gastronomia, nos traz olhares sobre os tijolos da Construção do gosto. Na fotografia de Preah, em duas imagens do seu portfólio de botecos cariocas, existe uma metáfora distante de experiências concretas. No texto da Bia, um manifesto na forma de um Convite para um serviço à brasileira.


Logo, então, abrimos nossas — Bia e Aline — próprias cartas, textos que nasceram em 2023 quando, juntas, criamos o curso Sommelieria Pindorama. Ao iniciarmos nossa pesquisa sobre o que seria uma sommelieria brasileira, deparamos-nos com presentes, passados e futuros e encerramos o curso com um exercício de escrita para toda a turma. Fica também o convite para esta prática depois de ler e beber desta zine.

Chamamos a Yumi Shimada, que fez um exercício de memória e arte, e na colagem nos trouxe suas referências e memórias de passeios com seu pai e com marcas de algumas das estéticas que traçamos por aqui. E fechamos com uma linha do tempo sobre O que foi e o que é cerveja no Brasil, que nos conta como essa bebida vem se moldando nos projetos políticos de uma nação, influenciando os olhares sobre o que temos no copo.


Um zine. Uma safra.

E isso não é tudo. Estamos ainda sedentas por mais safras e mais debates sobre esse beber brasileiro! Sobre aquilo que é diverso e vivo, é sempre um contínuo. Beber desta primeira safra é provocar os profissionais que estão conectados de todas as formas, para todos os lados e todas as categorias.

Na ponta da nossa língua também tem o agradecimento, pois sabemos que é preciso uma aldeia inteira para fazer algo, como nos ensina o provérbio Yorubá. À todas as leituras que nos ajudaram a compôr nossos textos; às amigas e amigos que nos incentivam a continuar falando sobre o assunto; à todas as pessoas que nos cercam e nos ensinam; e ao Edital Fermenta, por ter nos proporcionado a oportunidade de construir esse projeto.


Seguimos convidando nossas leitoras e leitores a ampliar seu repertório e, sobretudo, com licença poética, a sua escuta sensorial pela língua — sentidos, linguagem, respiração, sons.

Abrimos a leitura com uma pergunta: O que tem NA sua LÍNGUA?


Obrigada, saúde!

Aline & Bia

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